Endometriose e IMC: qual a relação entre peso corporal e a doença?
Postado em: 22/07/2026
Quando falamos em endometriose, é comum surgirem dúvidas sobre o papel do peso corporal. Afinal, mulheres magras têm mais risco de desenvolver a doença? A obesidade protege contra a endometriose? O excesso de peso piora os sintomas?
A resposta é mais complexa do que parece. Embora estudos mostrem que mulheres com menor índice de massa corporal (IMC) apresentam maior frequência de diagnóstico de endometriose, isso não significa que a obesidade seja um fator protetor. Hoje sabemos que a relação entre endometriose e IMC é bidirecional, envolvendo fatores hormonais, imunológicos e metabólicos.

O que é o IMC?
O Índice de Massa Corporal (IMC) é uma medida simples utilizada para estimar a relação entre peso e altura.
- Abaixo de 18,5 kg/m²: baixo peso
- 18,5–24,9 kg/m²: peso adequado
- 25–29,9 kg/m²: sobrepeso
- ≥30 kg/m²: obesidade
Apesar de ser uma ferramenta útil em estudos populacionais, o IMC não avalia composição corporal, distribuição de gordura ou saúde metabólica individual.
Mulheres magras apresentam maior risco de endometriose?
Diversos estudos prospectivos demonstraram uma associação consistente entre IMC mais baixo e maior probabilidade de diagnóstico de endometriose.
Um dos trabalhos mais importantes sobre o tema, realizado com mais de 116 mil mulheres acompanhadas durante 20 anos (Nurses’ Health Study II), mostrou que quanto menor o IMC na adolescência e na vida adulta, maior era o risco de desenvolver endometriose confirmada cirurgicamente.
Além disso, mulheres com menor quantidade de gordura abdominal e distribuição periférica de gordura apresentaram incidência significativamente maior da doença.
Entretanto, é importante interpretar esses dados com cautela.
Associação não significa causa.
Ainda não sabemos se mulheres magras desenvolvem mais endometriose ou se a própria doença leva alterações metabólicas que dificultam o ganho de peso.
A endometriose pode fazer a paciente perder peso?
Essa é uma hipótese cada vez mais aceita.
A endometriose deixou de ser considerada apenas uma doença localizada da pelve. Hoje ela é reconhecida como uma condição inflamatória sistêmica, capaz de alterar diversos mecanismos metabólicos.
Estudos experimentais demonstram que a doença pode modificar o funcionamento do fígado, alterar a produção de hormônios relacionados ao apetite e aumentar o gasto energético, favorecendo um fenótipo metabólico caracterizado por menor peso corporal.
Isso ajuda a explicar por que muitas pacientes permanecem naturalmente magras mesmo sem restrições alimentares.
A obesidade protege contra a endometriose?
Não.
Durante muitos anos acreditou-se que mulheres obesas apresentavam menor risco de endometriose, principalmente porque estudos epidemiológicos encontravam menor número de diagnósticos nesse grupo.
Hoje sabemos que essa interpretação provavelmente é simplista.
Existem vários fatores que podem influenciar esse resultado:
- maior dificuldade diagnóstica em mulheres obesas;
- diferenças hormonais;
- menor indicação de laparoscopia no passado;
- viés de seleção dos estudos.
Mais recentemente, pesquisas realizadas em diferentes populações demonstraram resultados opostos.
Um estudo chinês envolvendo mais de 1.500 mulheres mostrou que pacientes obesas apresentavam aproximadamente o dobro da chance de diagnóstico de endometriose quando comparadas às mulheres com peso normal.
Isso demonstra que a obesidade não impede o desenvolvimento da doença.
O IMC interfere na intensidade da dor?
Curiosamente, sim.
Estudos recentes mostram que mulheres com IMC normal ou baixo tendem a relatar dor pélvica crônica mais intensa.
Já pacientes com obesidade apresentam menor frequência de dispareunia (dor durante a relação sexual) e menor intensidade de alguns tipos de dor pélvica.
Ainda não existe uma explicação definitiva para esse fenômeno.
Hipóteses incluem diferenças na produção de citocinas inflamatórias, percepção dolorosa, metabolismo hormonal e distribuição do tecido adiposo.
Entretanto, isso não significa que a doença seja menos grave.
O excesso de peso pode piorar a endometriose?
Provavelmente sim.
O tecido adiposo funciona como um órgão endócrino extremamente ativo.
Ele produz diversas substâncias inflamatórias, entre elas a leptina.
Em mulheres obesas, os níveis de leptina costumam estar elevados, favorecendo:
- aumento da inflamação sistêmica;
- formação de novos vasos sanguíneos (angiogênese);
- maior sobrevivência dos implantes de endometriose;
- ativação de vias inflamatórias, como a JAK-STAT.
Esses mecanismos podem contribuir para a progressão da doença, mesmo quando alguns sintomas dolorosos parecem menos intensos.
O IMC influencia a localização da endometriose?
Até o momento, não.
Estudos utilizando a classificação internacional #Enzian, atualmente considerada a mais completa para avaliação da endometriose profunda, mostram que o IMC não altera a distribuição anatômica das lesões.
Ou seja, mulheres magras e obesas podem apresentar comprometimento semelhante do intestino, da bexiga, dos uréteres, do septo retovaginal, dos ligamentos uterossacros ou do diafragma.
E quanto à fertilidade?
A relação entre obesidade, infertilidade e endometriose merece atenção especial.
Embora algumas dores possam ser menos intensas em pacientes obesas, diversos estudos mostram aumento significativo das taxas de infertilidade à medida que o IMC aumenta.
Isso provavelmente ocorre porque o excesso de peso também prejudica:
- qualidade dos óvulos;
- ovulação;
- receptividade endometrial;
- resposta aos tratamentos de reprodução assistida.
Portanto, controlar o peso faz parte do cuidado global da fertilidade, independentemente da presença de endometriose.
O que isso significa na prática?
A principal mensagem é que não existe um “peso típico” para mulheres com endometriose.
A doença pode ocorrer em pacientes extremamente magras, com peso normal ou obesas.
Da mesma forma, o IMC isoladamente não determina a gravidade da doença, a intensidade dos sintomas ou a necessidade de cirurgia.
Cada paciente deve ser avaliada de forma individualizada, considerando:
- sintomas;
- exame físico;
- exames de imagem especializados;
- desejo reprodutivo;
- extensão anatômica da doença;
- qualidade de vida.
Conclusão
A relação entre endometriose e IMC é muito mais complexa do que imaginávamos há alguns anos.
Embora mulheres com menor IMC apresentem maior frequência de diagnóstico em grandes estudos populacionais, isso não significa que a obesidade proteja contra a doença. Pelo contrário, o excesso de peso pode favorecer um ambiente inflamatório que contribui para sua progressão e também comprometer a fertilidade.
Mais importante do que o número na balança é compreender que a endometriose é uma doença sistêmica, multifatorial e altamente individual. O tratamento deve ser personalizado, baseado nas características clínicas de cada paciente e conduzido por uma equipe com experiência no diagnóstico e manejo da doença.
Referências
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